O imenso amor que sinto pelos
animais me acompanha desde sempre. Na infância, no lugar das
bonecas, meus “filhos” eram os animais, especialmente os
cachorros. Sentia necessidade de proteger estes animaizinhos.
Mas, foi a partir do ano de
2002 que ser “protetora” tornou-se uma obrigação. Neste ano,
apesar de trabalhar muito, envolvi-me totalmente com o caso de uma
cadelinha que foi atropelada próximo da minha casa.
Encontrei-a numa calçada que
parecia mais uma “chapa quente” no sol do mês de Janeiro. A
pobrezinha tentava se levantar.
É triste pensar que aquele
sofrimento acontecia em um local de intensa circulação de seres
humanos. Fiquei sabendo que, um destes arrastou-a para a calçada,
logo após o atropelamento. E, lá se encontrava sem água, sem
comida e “invisível”, por dois dias.
O pior de tudo, de tudo mesmo,
foi o mal que fiz a ela.
No meio da compaixão que
sentia pelo sofrimento daquele animalzinho, não percebi que a
ingenuidade, a desinformação e, principalmente, o egoísmo me
levariam a aumentar a pena daquela criaturinha sobre a Terra.
Mesmo com o diagnóstico do
médico veterinário confirmando que a coluna estava quebrada e que
só se arrastaria, decidi levá-la para viver em um sítio
com outros animais que aguardavam adoção.
Não conseguia conceber a
ideia
de sacrificá-la. Ao me ver, ela demonstrava alegria. Como decidir
por sua morte?
Não percebi o egoísmo se
manifestando em mim e, justamente em relação aquele serzinho tão
necessitado de compaixão, a VERDADEIRA.
Na primeira visita depois de
uns 20 dias, fiquei abalada. Ao ouvir minha voz, um “esqueletinho”
saiu se arrastando com dificuldade de um canto escuro debaixo de um
sofá velho. Disseram-me que quase não saia de lá.
E, ela ainda estava feliz por
me ver.
Mais alguns dias se passaram
e, antes que conseguisse decidir pela eutanásia, fui informada do
seu falecimento. A “liberdade”
chegou penosamente, pela negligência.
Com certeza este acontecimento
colaborou na decisão de fazer mais pelos animais da
rua em situação de extremo sofrimento. Mas,
desde cedo já sabia que entrar nesta luta
mais diretamente era uma questão de tempo, e
era inevitável para
algum momento da minha vida.
Chega a ser desesperador ver
tanto sofrimento. São seres esqueléticos, famintos e com doenças
que na maioria das vezes é de fácil cura, mas que a
negligência/indiferença/inconsciência humana os levam a morte
lenta e penosa.
Além da selvageria direta através de mutilações em
atropelamentos, com pauladas, ácido, cigarro, facadas, venenos...
Sei que são muitas as pessoas
que trabalham por eles, mas infelizmente ainda é muito pouco diante
do imenso número de animais
que perambulam por nossas ruas com fome, sede e doentes,
especialmente nas periferias das grandes cidades.
E, hoje mais calejada pela
labuta incessante na tentativa de amenizar o sofrimento de animais
abandonados, refletir sobre até onde mantê-los vivos é uma
constante, como deve ser a reflexão sobre o egoísmo.
Infelizmente, não tenho
registro de muitos animais que foram resgatados por mim.
O mais importante é salvá-los
e encaminhá-los para adoção castrados e, se possível, devidamente
vacinados e saudáveis.
Também alimento e medico
alguns animais na rua mesmo.
Sinto por não poder fazer
mais.
Não recebo qualquer ajuda
financeira.
Acumulei muitas dívidas por
eles. Fiz até empréstimo.
É uma luta difícil. Mas, não
há como retroceder.
E ... aos poucos, penso que
vou me redimindo.
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